
Fala rapaziada! Somos ou não somos seres humanos do século XXI (21)??? Por isso, mesmo que o novo clipe da Lady Gaga, o Bbb 10, e aquela atualizada no orkut chamem merecidamente nossa atenção, gastemos alguns minutos, sem essa de “texto muito grande, preguiça de ler”.
Segue a reflexão interessantísima, retirada e adaptada do livro “Convite à Filosofia” da autora Marilena Chaui.
“O ideal científico
O percurso que fizemos no estudo das ciências evidencia a existência de um ideal científico: embora continuidades e rupturas marquem os conhecimentos científicos, a ciência é a confiança que a cultura ocidental deposita na razão como capacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal, tenha de ser inteiramente construída pela própria atividade racional.
A lógica que rege o pensamento científico contemporâneo está centrada na idéia de demonstração e prova… por meio das operações de análise, síntese e interpretação.
Ciência desinteressada e utilitarismo
Desde a Renascença – isto é, desde o humanismo, que colocava o homem no centro do universo e afirma seu poder para conhecer e dominar a realidade – duas concepções sobre valor da ciência estiveram sempre em confronto.
A primeira delas, que chamaremos de ideal de conhecimento desinteressado, afirma que o valor de uma ciência encontra-se na qualidade, no rigor e na exatidão, na coerência e na verdade de uma teoria, independente de sua aplicação prática. A teoria cientifica vale por trazer conhecimentos novos sobre fatos desconhecidos, por ampliar o saber humano sobre a realidade.
…mas o uso da ciência é conseqüência e não causa do conhecimento científico.
A segunda concepção, conhecida como utilitarismo, afirma, ao contrário, que o valor de uma ciência encontra-se na quantidade de aplicações práticas que possa permitir. É o uso ou a utilidade imediata dos conhecimentos que prova a verdade de uma teoria cientifica e lhe confere valor. Os conhecimentos são procurados para resolver problemas…
A ideologia cientificista
O senso comum, ignorando as complexas relações …entre a ciência pura e a ciência aplicada …tende a identificar as ciências como resultados de suas aplicações. …atitude conhecida como cientificismo, isto é, a fusão entre ciência e técnica e a ilusão da neutralidade cientifica. O cientificismo é a crença infundada de que a ciência pode e deve conhecer tudo; que, de fato, conhece tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal como esta é em si mesma.
Ideologia da ciência: crença no progresso e na evolução dos conhecimentos científicos que, um dia, explicarão totalmente a realidade e permitirão manipulá-la tecnicamente, sem limites para a ação humana.
Mitologia da ciência: crença na ciência como se fosse magia e poderio ilimitado sobre as coisas e os homens, dando-lhe o lugar que muitos costumam das às religiões, isto é, um conjunto doutrinário de verdades intemporais, absolutas e inquestionáveis.
A ilusão da neutralidade da ciência
…essa imagem da neutralidade cientifica é ilusória. Quando o cientista escolhe uma certa definição de seu objeto, decide usar determinado método e espera obter certos resultados, sua atividade não é neutra nem imparcial, mas feita por escolhas precisas.
Exemplo:
O racismo não é apenas uma ideologia social e política; é também uma teoria que se pretende científica, apoiada em observações, dados e leis conseguidos com a biologia, a psicologia, a sociologia. É uma certa maneira de apresentar tais dados de modo a transformar diferenças étnicas e culturais em diferenças biológicas naturais imutáveis e separar os seres humanos em superiores e inferiores, dando aos primeiros justificativas para explorar, dominar e mesmo exterminar os segundos.
O melhor caminho para perceber a impossibilidade de uma ciência neutra é levar em consideração o modo como a pesquisa cientifica se realiza em nosso tempo.
A ideologia cientificista usa essa imagem idealizada para consolidar a da neutralidade cientifica, dissimulando, com isso, a origem e a finalidade da maioria das pesquisas, destinadas a controlar a natureza e a sociedade segundo os interesses dos grupos que dominam os financiamentos dos laboratórios.
Na medida em que a razão se torna instrumental, a ciência vai deixando de ser uma forma de acesso aos conhecimentos verdadeiros para tornar-se um instrumento de dominação, por exploração. Para que não seja percebida como tal, passa a ser sustentada pela ideologia cientificista, que, através da escola e dos meios de comunicação de massa, desemboca na mitologia cientificista.
Quando Darwin elabora a teoria biológica da evolução das espécies, o modelo de explicação usado por ele permitia-lhe supor que o processo evolutivo ocorria por seleção natural dos mais aptos à sobrevivência.
Ora, na mesma época, a sociedade capitalista estava convencida de que o progresso social e histórico provinha da competição e da concorrência dos indivíduos, segundo a lei econômica da oferta e da procura. Um filósofo, Spencer, aplicou, então, a teoria darwiniana à sociedade: nesta, os mais “aptos” (isto é, os mais capazes de competir e concorrer) tornam-se naturalmente superiores aos outros, vencendo-os em riqueza, privilégios e poder.
Ao transpor uma teoria biológica para uma explicação filosófica sobre a essência da sociedade, Spencer transformou a teoria cientifica da evolução em ideologia evolucionista. Por quê? Em primeiro lugar, porque generalizou para toda a realidade resultados obtidos num campo particular dos conhecimentos específicos. Em segundo lugar, porque tomou conceitos referentes a fatos naturais e os converteu em fatos sociais, como se não houvesse diferença entre natureza e sociedade.
Confusão entre ciência e técnica
…o senso comum social ignora essas transformações da ciência e da técnica e conhece apenas seus resultados mais imediatos: os objetos que podem ser usados por nós (máquina de lavar, vídeo game, televisão a cabo, máquina de calcular, computador, robô industrial, telefone celular, etc.)
Como, para usá-los, precisamos receber um conjunto de informações detalhadas e sofisticadas, tendemos a identificar o conhecimento científico com seus efeitos tecnológicos. Com isso, deixamos de perceber o essencial, isto é, que as ciências passaram a fazer parte das forças econômicas produtivas da sociedade e trouxeram mudanças sociais de grande porte na divisão social do trabalho, na produção e na distribuição dos objetos, na forma de consumi-los. Não percebemos que as pesquisas científicas são financiadas por empresas e governos, demandando grandes somas de recursos que retornam, graças aos resultados obtidos, na forma de lucro e poder para os agentes financiadores.
Por não percebermos o poderio econômico das ciências, lutamos para ter acesso, para possuir e consumir os objetos tecnológicos, mas não lutamos pelo direito de acesso tanto aos conhecimentos como às pesquisas científicas, nem lutamos pelo direito de decidir seu modo de inserção na vida econômica e política da sociedade.
O problema do uso das ciências
Muitas vezes…o cientista nem sequer imagina que a teoria terá aplicação prática.
É exatamente isso que torna o uso da ciência algo delicado, que, em geral, escapa das mãos dos próprios pesquisadores. É assim, por exemplo, que a microfísica ou quântica desemboca na fabricação das armas nucleares; a bioquímica e a genética, na de armas bacteriológicas.
Quando estudarmos a ética, veremos os graves problemas morais trazidos pelas técnicas desenvolvidas pela genética contemporânea.
Uma das características mais novas da ciência está em que as pesquisas científicas passaram a fazer parte das forças produtivas da sociedade, isto é, da economia …a ciência tornou-se parte integrante e indispensável da atividade econômica. Tornou-se agente econômico e político. …não é por acaso, por exemplo, que governos criem ministérios e secretarias de Ciência e Tecnologia
Essa nova posição das ciências na sociedade contemporânea, além de indicar que é mínimo ou quase inexistente o grau de neutralidade e de liberdade dos cientistas, indica também que o uso das ciências define os recursos financeiros que nelas serão investidos.
A sociedade, porém, não luta pelo direito de interferir nas decisões de empresas e governos quando estes decidem financiar um tipo de pesquisa em vez de outro. Dessa maneira, o campo científico tornou-se cada vez mais distante da sociedade sem que esta encontre meios para orientar o uso das ciências, pois este é definido antes do início das próprias pesquisas e fora do controle que a sociedade poderia exercer sobre ele.”